15 maio 2017 | Dave Bookless | 0 comentários

Esperança em um mundo pós-verdade

O Oxford English Dictionary anunciou que sua «Palavra do Ano para 2016», tanto no Reino Unido como nos EUA, é «pós-verdade» (veja artigo no UOL). Em um ano que viu campanhas amargamente divisionistas no referendo do Brexit e na eleição americana, além de um aumento do extremismo político em várias partes do mundo, ficou claro que ingressamos numa era tóxica de medo e incerteza sobre em que acreditar e em quem confiar.

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A Rocha não é uma organização político-partidária, e acreditamos que terá havido partidários de ambos os lados entre os votantes no Reino Unido e EUA. No entanto, A Rocha tem uma opinião, sim, sobre o lugar da natureza – a criação de Deus – no discurso político e no processo decisório. É aí que a definição do Oxford English Dictionary online para «pós-verdade» se torna instrutiva:

«Relacionada com ou indicando circunstâncias nas quais fatos objetivos têm menos influência na formação da opinião pública do que apelos à emoção e crença pessoal.»

Com efeito, os fatos não contam muito mais. As pessoas não confiam em estatísticas e a ciência é percebida como política. Como George Marshall vem defendendo há anos [1], «as pessoas são pouco motivadas por fatos e números… elas são motivadas por valores e identidade compartilhados e a alegria de pertencer.» [2] A verdade, no contexto do século XXI, não é definida objetivamente, mas em termos de comunidades sociais e virtuais nas quais podemos submergir.

Para os cientistas e conservacionistas, acostumados a chegar a decisões políticas por meio de argumentos baseados em evidências, isso é profundamente perturbador. Para os cristãos, que, desde o Iluminismo, usaram argumentos racionais para deduzir em favor de Deus e da evidência da Ressurreição, é igualmente preocupante. No entanto, quero sugerir que há um lado positivo para isso, que se relaciona com a maneira pela qual A Rocha sempre trabalhou.

O Evangelho contém a exclamação de Pôncio Pilatos: «O que é a verdade?» − palavras que poderiam vir diretamente de um debate eleitoral atual. No entanto, Jesus falou da verdade, não como uma proposição ou prova, mas como algo ao qual se pertencer e em última instância de si próprio como «o caminho, a verdade e a vida». A verdade encontra-se na relação, e talvez a razão mais profunda pela qual agora vivemos num mundo de «pós-verdade» é o colapso dos relacionamentos que ocorre hoje: entre políticos e o público, entre diferentes culturas e etnias (Dictionary.com escolheu ‘Xenofobia’ ou medo de estrangeiros como sua palavra para 2016, com base em pesquisas na web), e obviamente entre a criação, a humanidade e, Deus.

Os valores fundamentais de A Rocha são relacionais, forjados em projetos de conservação a longo prazo, baseados na comunidade, transculturais. Ao fazermos parte do trabalho de A Rocha, aprendemos verdades desconfortáveis sobre nós mesmos na vida da comunidade transcultural, à medida que descobrimos nossos próprios preconceitos e nossa necessidade de mudança. Aprendemos verdades inconvenientes sobre como temos danificado o mundo precioso de Deus, quando registramos o ocaso da diversidade da criação em nossos estudos a longo prazo. No entanto, também encontramos verdades mais esperançosas. Testemunhamos a verdade de vidas que mudam quando as pessoas recebem rendimentos sustentáveis, quando comunidades entendem que cuidar da criação é cuidar de seus próprios filhos, quando igrejas tornam-se Eco-igrejas, quando indivíduos quebrantados encontram cura e propósito em seguir a Cristo entre outras pessoas igualmente sofridas. Nós discernimos sinais de redenção em habitats danificados sendo restaurados, na maravilha da resistência da natureza e na colheita do fruto de projetos de crescimento de alimentos. Encontramos esperança na verdade de que abordagem de A Rocha de restaurar relacionamentos entre Deus, as pessoas e o planeta através trabalho direto a longo prazo, está prosperando em contextos incrivelmente diversos – urbanos e rurais, marinhos e florestais − em variadas culturas, através de todos os continentes habitados.

Em Howard’s End, o grande brado do novelista E. M. Forster foi «Não mais viver em fragmentos … somente conectar.» Se um mundo pós-verdade é a consequência de relações fragmentadas, então reconectar-se através da restauração de relacionamentos danificados é a maneira de reconstruir-se a esperança e a confiança e de redescobrir-se a verdade. As soluções políticas grandiosas são muito remotas. A verdade começa a partir da base. É plantada quando nos voltamos para Deus, as pessoas e o planeta em contextos locais. E dá frutos quando aprendemos a ter interdependência e a descobrir alegria nas pequenas coisas. Como um grão de mostarda, pode parecer pequena e insignificante, mas cresce e se espalha. Era uma vez um bebê que nasceu… pequeno, impotente, insignificante, ou assim parecia. No entanto, «E o Verbo se fez carne, e habitou entre nós, e vimos a sua glória, como a glória do unigênito do Pai, cheio de graça e de verdade.» (João 1:14)

[1] George Marshall, Don’t Even Think About It: Why Our Brains Are Wired to Ignore Climate Change (Bloomsbury, 2014

[2] Apresentação sobre “Comunicação sobre a Mudança Climática” no Simpósio Ecologia e Fé, Londres, 2016

Tradução: Elisa Gusmão

Categorias: Reflexões
Sobre Dave Bookless

O Dave tem colaborado com A Rocha desde 1997, primeiro na diretoria internacional, e a partir de 2001 com A Rocha Reino Unido como co-fundador (com a sua esposa Anne), depois como Diretor Nacional, e finalmente como Diretor para a Teologia, Igrejas e Comunidades Sustentáveis. Ele se tornou Diretor de Teologia de A Rocha Internacional em setembro de 2011. A sua função inclui o aconselhamento e provisionamento de recursos à diretoria e equipe de A Rocha Internacional, e também às organizações nacionais A Rocha, e fazer a ligação com organizações teológicas e redes de missões internacionais. Simultaneamente, ele está fazendo seu doutorado na Universidade de Cambridge sobre teologia bíblica e conservação da biodiversidade.

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