21 dezembro 2017 | Robert Sluka | 1 comentários

À espera do furacão Irma

O Dr. Bob Sluka, nosso cientista-chefe do programa de conservação marinha e costeira, escreve sobre a sua experiência de esperar o furacão Irma em setembro de 2017.

Nossa família tem vivido no exterior nos últimos 21 anos e mudou-se para a Flórida uma semana antes de a região ser atingida pelo furacão Irma. De certa forma, má hora. No entanto, foi bom viver essa experiência em família. Também esta não foi nossa primeira experiência com um furacão – Bob e Cindy ambos passaram pelo Andrew [em 1992] durante seu tempo na Universidade de Miami. Havia muito mais informações desta vez – e, portanto, muito mais espera.

Nós acompanhamos dia a dia como as minúsculas mudanças no caminho do furacão ou sua intensidade eram relatados. Curiosamente, sob o ponto de vista científico da comunicação, as estações de TV na área da baía de Tampa estavam relatando a trilha projetada do furacao a partir de cerca de 10 modelos – a qual foi por isso chamada trilha espaguete. Embora o foco tenha sido nos principais modelos europeus e norte americanos, eles continuaram enfatizando a diferença entre os modelos e como era muito difícil fazer uma previsão do tempo a uma distância tão grande. No entanto, eles a fizeram – e nós esperamos.

Na quinta-feira antes da chegada do furacão, decidimos comemorar o aniversário de 14 anos da minha filha, viajando algumas horas em direção ao norte para descermos o rio Rainbow em bóias. O Estado de Florida é abençoado com surpreendentes nascentes de água fresca e clara, que filtra-se através do calcário e é um refúgio para os peixes-boi no inverno. Acontece que a estação de bóias estava fechada, então nós nadamos na fonte, ficando atentos para os jacarés – sobre os quais havia avisos. Eu também tinha esquecido que há ursos na Flórida – mas os avisos ao longo da estrada nos lembraram disso, à medida que dirigíamos através de habitats de ursos. Fiquei feliz por ter enchido de gasolina o tanque de nosso veículo nos dias anteriores, já que quase todos os postos de gasolina estavam vazios de combustível – exceto uns poucos com filas de 20-30 carros à espera para se reabastecerem.

Chegamos em casa para assistir mais capítulos da trilha espaguete e esperar. Felizmente decidimos não esperar nas filas longas de veículos que tentavam sair do Estado. A casa em que estávamos hospedados tinha elevação relativamente alta (4 metros) e ficava cerca de 1,5 km no interior, por isso senti-me seguro o suficiente para não sair. Começamos a preparar-nos seriamente, levando para dentro de casa tudo o que pudesse ser levado pela força do vento. Eu fui incumbido dos comedouros de pássaros que ficavam no jardim traseiro, um dos quais ficava perto de um bosque pantanoso. Verificando se havia jacarés antes de montar a escada, removi o alimentador da borda do bosque. Sem muita convicção, procuramos água nas lojas locais – ela havia acabado totalmente dias atrás. Em casa, localizamos qualquer coisa onde pudéssemos guardar água e enchemos esses recipientes. Todos os documentos importantes foram colocados em sacos impermeáveis; também os fotografamos e fizemos o upload das fotos, como precaução. A garagem foi esvaziada de todas as nossas malas e baús cheios de kits de ciência do oceano para que os carros pudessem ser colocados ali. Em seguida, mais TV e análise minuciosa do caminho do furacão.

A informação estava vindo agora do Caribe, mostrando a devastação. A região de Florida Keys estava sendo evacuada e, a seguir, os trajetos começaram a deslocar-se para a costa ocidental da Florida – com o olho do furacão passando quase sobre a casa onde nós estávamos! A esta altura já era tarde demais para sair, mas também estávamos transquilos e nos sentíamos seguros nos nossos 4,2 m de altitude. A questão principal para as crianças era se tínhamos seus snacks preferidos – roladinhos de pizza Jeno’s, para os conhecedores.

Chegou a hora de esperarmos. Sábado o sol saiu e nós nadamos na piscina da comunidade – junto com todas as espreguiçadeiras e cadeiras. Ideal para voltas perigosas, mas a água estava fresca e a banheira de hidromassagem estava morna. As crianças decidiram que, aquela noite, precisávamos de pipocas e filmes de catástrofe. As lojas tinham fechado todas ao meio-dia – tudo o que restava era esperar. Felizmente eu tive a clarividência de retirar um monte de livros interessantes da biblioteca. Caminhamos pelo bairro aquela noite, enquanto o vento começou a ficar mais forte, as bordas distantes do furacão chegando. Conversamos com diversos vizinhos que haviam ficado, todos calculando nossas chances. Olhamos para os painéis solares no nosso telhado e achamos que eles pareciam suficientemente seguros – surpreendentemente poucas casas os têm nesse Estado ensolarado.

A manhã de domingo chegou, a maioria das igrejas cancelando seus serviços. Fizemos os preparativos de última hora, mas principalmente esperamos. As projeções para a nossa área eram de que o furacão havia atingido bem longe ao sul de onde estávamos, o que significava que provavelmente iria abrandar e ser menos danoso do que originalmente esperado – pelo menos para nós. A chuva começou e eu terminei com pressa um relatório sobre o programa marinho para as reuniões de equipe de A Rocha a serem realizadas na semana seguinte, no caso de não voltarmos a ter energia por algum tempo. Estas e outras responsabilidades de trabalho de última hora que eram “críticas” foram terminadas e enviadas por email.

O vento e a chuva começaram a sério no final da tarde. Só restava uma coisa a fazer por esta família aquática – dirigir-se à piscina e à banheira de hidromassagem! Vestimos nossos trajes de natação e andamos a poucas centenas de metros até a piscina da comunidade. A chuva caía forte enquanto nós nadávamos entre as espreguiçadeiras protegidas do vento na piscina. As palmeiras em torno da piscina moviam-se violentamente enquanto nós nos abrigávamos no calor da banheira de hidromassagem. Não querendo nos arriscar demais, e percebendo que as linhas de energia elétrica ficavam logo atrás de nós, voltamos para a casa para uma última refeição com energia (pizza, é claro). Outro filme de catástrofe estava no programa; este era tão ruim que ficamos realmente grato quando faltou luz no meio dele.

Com velas e tochas, todos nós nos reunimos na varanda de trás. Provavelmente não era o melhor lugar para se ficar com vento, mas ela tinha um telhado sólido e estava bastante perto do bosque. Foi possível então ouvirmos o vento e a chuva, e as árvores se movendo/quebrando. Nosso filho mais velho trouxe sua guitarra e nos fez cantar com ele. Eu fiquei ouvindo ele tocar e os outros cantarem. Eventualmente, o sono tomou conta de nós, com a leitura obrigatória de Harry Potter antes de irmos para a cama.

Nós acertamos nossos despertadores para 2 da manhã, que era o horário no qual o olho do furacão estaria mais próximo. Acordamos com ventos fortes, mas o cansaço nos levou rapidamente de volta para a cama. Acordamos novamente com a luz da manhã numa vizinhança que havia sido poupada do pior da tempestade. Parecia que nós teríamos muita limpeza a fazer de galhos pequenos e folhas de palmeira, mas nenhum dano maior. Os painéis solares sobreviveram. Tendo trabalhado durante semanas para limpar após o furacão Andrew estávamos gratos, mas também percebemos que outros mais ao sul não tinham tido tanta sorte. Passamos o dia limpando e ajudando outros vizinhos a fazerem o mesmo. Eventualmente, sim, de volta à piscina. Esta vez para retirar a mobília para fora dela e começar a retirar todas as folhas da piscina. Milhões de pessoas estavam sem luz, mas a nossa voltou rapidamente.

As preparações foram importantes – poderia ter sido, e para muitos foi, muito pior. No momento em que escrevo isto, estou ouvindo Foggy Road, de Burning Spear. Parece apropriado, tanto para nosso tempo de espera do furacão, como para o caminho à nossa frente, agora que recomeçamos na Flórida. Somos gratos pelos amigos, família e nosso Criador que nos amam.

Imagem de satélite da NASA. Outras fotos por Bob Sluka.

Tradução: Elisa Gusmão

Categorias: Histórias
Tópicos: EUA tempestades
Sobre Robert Sluka

Bob trabalha no ramo de preservação marinha há vinte anos. Seu foco está nas áreas protegidas marítimas e na ecologia de recifes de coral, assim como na pescaria de recifes de coral. Após sua pós-graduação a qual trabalhou na Flórida e no Caribe, Bob passou dez anos no sul da Ásia, principalmente na Índia e nas Ilhas Maldivas. Ele conheceu A Rocha quando se mudou para o Reino Unido em 2006 e tornou-se voluntário num projeto de restauração de zimbro em Chiltern Hills e em pesquisa marinha no País de Gales. Em 2010, ele ajudou a iniciar o trabalho de preservação marinha em Mwamba, o centro de estudo de campo de A Rocha Quênia. Ele vive na Florida, Estados Unidos.

Veja todos os artigos de Robert Sluka

Uma resposta para “À espera do furacão Irma”

  1. […] recentemente mudado para a costa da Flórida (você pode ler o seu relatório em primeira mão, À espera do furacão Irma). E é nessa veia pessoal que devemos responder primeiro, como cristãos e companheiros dos demais […]

Deixe uma resposta

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.