16 maio 2016 | Dave Bookless | 0 comentários

Para uma teologia de lava-louças

Qual é a melhor opção, usar uma máquina lava-louças ou lavar a louça? Recentemente um grupo de membros de A Rocha – geralmente dispersos em diversos continentes – uniu-se para uma semana de reuniões. No local, nós mesmos nos servíamos e na cozinha havia uma máquina de lavar louça e duas pias. E foi assim que o assunto caminhou para as comparações entre as virtudes de se lavar louça manualmente ou utilizar a máquina para tal tarefa. Entendo que esse dilema é para privilegiados, mas como aparece frequentemente em discussões e levanta temas interessantes, achei que valia a discussão.

Lavagem de louças no centro de estudos de A Rocha em Provence, na França

Lavagem de louças no centro de estudos de A Rocha na Provença, França

A maioria das discussões sobre o assunto limita-se às considerações técnicas: qual método afeta menos o meio ambiente, qual é o mais limpo, e qual usa menos CO₂? Há vários artigos em jornais, revistas e websites que alegam, com base em pesquisas, que as lava-louças são mais eficientes! Como sou uma pessoa desconfiada, decidi investigar essas afirmações. Será que tais pesquisas são patrocinadas por fabricantes de lava-louças? Até onde consegui descobrir, todos os artigos originaram-se da mesma fonte: uma pesquisa feita em países europeus conduzida por Christian Paul-Richter e pesquisadores da Universidade de Bonn, na Alemanha, entre 2006 e 2007, que resultou em muitas publicações em revistas acadêmicas. Os artigos não fazem referência a um patrocinador, mas uma pesquisa rápida feita na web revela que os ”parceiros” do projeto eram dois fabricantes de máquinas lava-louças (Electrolux e ASKO) e duas empresas que produzem detergentes para tais eletrodomésticos (Henkel e Reckitt). É claro que isso não significa que a pesquisa não foi conduzida de forma científica e independente, mas esse dado é algo importante de se ressaltar.

Com relação aos resultados das pesquisas – e eu as li por completo – os artigos são bem menos conclusivos do que o que as manchetes do tipo “As lava-louças são menos poluentes”, tão frequentemente citadas, parecem sugerir. De fato, em meio a tantas outras, a verdadeira resposta é, “depende”. Sim, as lava-louças economizam tempo e limpam bem as louças, principalmente se você usa panos sujos para secar suas louças – como dizia meu tio Alec, que era médico. Assim como também (e preste atenção em todos os “ses”): se você tiver uma máquina lava-louças nova e eficiente, se você só for usá-la quando cheia, se você sempre utilizar o indicador de baixa temperatura, e se a energia de sua casa for “limpa”, só assim você utilizará menos água, menos CO₂ e menos detergente do que se fizer o serviço manualmente. Entretanto, se você for lavar os pratos somente de uma ou duas pessoas, se fizer uma pré-lavagem, se lavar em uma temperatura alta e se utilizar uma máquina meio cheia (porque não há mais pratos limpos!), então lavar a louça à mão é a melhor opção para você. A pesquisa também mostrou várias formas de se lavar louças! Claramente, se você deixar a torneira de água quente constantemente aberta enquanto lava as louças, você desperdiçará uma quantidade enorme de água e energia. Mas, se você tirar todo o excesso de comida primeiro, usar uma bacia para lavar e outra para enxaguar, e se sua água for aquecida à gás (que é bem mais eficiente), você estará sendo mais “ecológico” do que seu vizinho mecanizado.

Além das técnicas, o que mais me interessou é por que as pessoas querem desesperadamente uma lava-louças ou teimosamente defendem a lavagem à mão… e foi a partir desse ponto que a teologia entrou em cena. No fim, lavar louças é uma tarefa do dia-a-dia que pode ser tanto um afazer ou uma oportunidade para devoção, serviço e construção comunitária. Assim como Tim Chester nos lembra em The Everyday Gospel: A Theology of Washing the Dishes (“O Evangelho do dia-a-dia: uma teologia do lava-louças”), o modo como fazemos pequenas tarefas diárias é uma expressão do nosso relacionamento com Deus e também uma conversa ”espiritual”. Lavar a louça, levar as crianças à escola, estender roupas no varal ou separar recicláveis podem ser tarefas que nos desagradam ou que podem expressar algo em nosso relacionamento com Deus.

Do mesmo modo, a mecanização faz com que não tenhamos que ficar com as mãos sujas (ou nesse caso extremamente limpas). Imagine se Jesus, ao invés de arregaçar as mangas e lavar os pés sujos de seus discípulos, tivesse pago alguém para fazer isso ou tivesse utilizado um foot spa para os pés deles. Não teria sido a mesma coisa. Máquinas são ótimas empregadas, mas são chefes terríveis. Tenho visto frequentemente pessoas levarem séculos enchendo e esvaziando lava-louças, enquanto fazem a pré-lavagem de panelas e frigideiras à mão, anulando toda e qualquer preocupação de se economizar tempo e cuidar do meio ambiente. Mas, de alguma forma, uma vez que tenhamos uma lava-louças à disposição, nos tornamos dependentes dela. Se dispuser de uma, utilize-a apenas quando tiver uma grande quantidade de pratos e quando puder enchê-la ao máximo, enquanto relaxa com seus convidados, mas não pense que você tem que usá-la todos os dias.

Por fim, lavar a louça à mão pode ser uma forma maravilhosa de aprofundar e construir relacionamentos – e isto está muito ligado ao que me atraiu para A Rocha desde o início. Existe um costume em muitos centros de A Rocha de convidados descansarem em seu primeiro dia e, em seguida, se unirem à lavagem e secagem da louça. Temos tentado fazer o mesmo em nossa família, incluindo também convidados. Jovens adolescentes podem se sentir aterrorizados quando lhes é apresentado um pano de prato, mas logo eles vão entrando na brincadeira, dançando ao som das músicas que são sempre tocadas na nossa cozinha, relaxando e rindo, sem ao menos perceberem que estão trabalhando também. O que conversamos nessas horas varia desde coisas bobas e superficiais até assuntos dolorosos e filosóficos, mas fazer algo manualmente nos convida a conversar e fazer amizades.

Então, de que lado você fica nisso tudo? Na pia, com as mãos dentro da espuma ou dando pequenos goles no seu café enquanto a máquina lava-louças faz o serviço? Eu adoraria ouvir a sua opinião, e, se você nos visitar, verá que temos uma máquina lava-louças em nossa casa também e o nome dela é Dave.

[1] Richter, C. P. (2010). Automatic dishwashers: efficient machines or less efficient consumer habits [Lava-louças automática: máquinas eficientes ou hábitos menos eficientes do consumidor]? International Journal of Consumer Studies, 34(2), 228–234

[2] Richter, C. P. (2011). Usage of dishwashers: observation of consumer habits in the domestic environment [O uso de máquinas lava-louças: observação dos hábitos do consumidor no ambiente doméstico], International Journal of Consumer Studies, 35, 180–186

[3] Richter, C.P. and Stamminger, R. (2012). Water Consumption in the Kitchen – a Case Study in Four European Countries [O consumo de água na cozinha – um estudo de caso em quatro países europeus]. Water Resources Management, 26(6), 1639–49

[4] https://www.landtechnik.uni-bonn.de/research/appliance-technology/all-projects/four-European-countries-ht25

[5] Chester, T. (2013), The Everyday Gospel: A theology of washing the dishes [O Evangelho de todo dia: uma teologia do lava-louças], 10Publishing.

Imagem apresentada: Lavando os pratos, de Edd Couchman

Tradução: Jorge Rodrigues / Elisa Gusmão

Categorias: Reflexões
Tópicos: teologia trabalho
Sobre Dave Bookless

O Dave tem colaborado com A Rocha desde 1997, primeiro na diretoria internacional, e a partir de 2001 com A Rocha Reino Unido como co-fundador (com a sua esposa Anne), depois como Diretor Nacional, e finalmente como Diretor para a Teologia, Igrejas e Comunidades Sustentáveis. Ele se tornou Diretor de Teologia de A Rocha Internacional em setembro de 2011. A sua função inclui o aconselhamento e provisionamento de recursos à diretoria e equipe de A Rocha Internacional, e também às organizações nacionais A Rocha, e fazer a ligação com organizações teológicas e redes de missões internacionais. Simultaneamente, ele está fazendo seu doutorado na Universidade de Cambridge sobre teologia bíblica e conservação da biodiversidade.

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