5 dezembro 2019 | Chris Walley | 0 comentários

Uma má semana e boas memórias

Adaptado com autorização do artigo no blog de Chris e Alison Walley.

Ia ser uma boa semana. Mas acabou não sendo. Estávamos começando a desfrutar de nossa nova casa, e tínhamos nosso filho mais novo e sua família nos visitando. E aí, na terça-feira ao meio-dia, com o cálido sol da Provença raiando sobre nós, recebemos a notícia chocante: um horrível acidente de carro na África do Sul havia ceifado as vidas dos nossos velhos amigos de A Rocha, Chris e Susanna Naylor, e com eles também a vida da Miranda Harris, deixando seu marido Peter recuperando no hospital.

Sentimos profundamente a morte da Miranda: uma mulher verdadeiramente memorável, que encarnava totalmente o conceito cristão de graça, alguém que valorizava e cuidava de toda a gente com quem se cruzava. No entanto, neste texto queremos falar sobre o Chris e a Susanna, registrando o papel que eles tiveram na conservação do brejo de Aammiq e na fundação de A Rocha Líbano.

Susanna e Chris Naylor

Susanna e Chris Naylor

Eu e minha esposa Alison conhecemos o Chris e a Susanna num evento social em Beirute em outubro de 1995. Eles eram obreiros cristãos recém-chegados ao vale de Bekaa, e rapidamente ficou óbvio que ambos eram entusiastas da natureza e que partilhavam nossas ideias de fazer algo relacionado com conservação do meio ambiente. Nós já conhecíamos A Rocha, mas eles apenas haviam ouvido falar. Nos encontrámos novamente no final do ano, e conversámos muito mais sobre o meio ambiente. Falámos pela primeira vez sobre Aammiq, uma área úmida no vale de Bekaa de importância internacional – havia sido designada sítio Ramsar – antes da Guerra Civil ter rebentado em 1975, mas que havia se degradado entretanto. (Um ambientalista libanês de renome me disse em 1995 que Aammiq estava «acabado».)

Não estava acabado, mas estava criticamente em perigo, e após recebermos diversas visitas, entre outros o Peter e a Miranda Harris, compreendemos que havia o potencial para fazer algo e que o casal Naylor – que vivia apenas a 10 km – seriam os líderes deste trabalho. E com efeito eles o lideraram, e logo surgiu algo ao qual nós estávamos começando a chamar «A Rocha Líbano». (Sendo apenas o segundo projeto, foi também significativo ver A Rocha passar de uma organização local baseada em Portugal para uma organização internacional.)

À medida que portas se abriam de forma literalmente miraculosa e o extraordinário projeto em Aammiq evoluía, nós nos envolvemos muito com o Chris e a Susanna. Tive obviamente que passar mais tempo com o Chris, fosse no brejo ou em reuniões em Beirute, mas estávamos bem conscientes do papel da Susanna como mãe, dona de casa e paciente anfitriã na agitada, metediça e tantas vezes frustrante pequena cidade de Qabb Elias, no vale de Bekaa.

Não era o lugar mais fácil para se viver: Por um lado, ficava em uma região do Líbano que a Embaixada Britânica considerava demasiado insegura para ser visitada pelos seus cidadãos – muito menos para se viver permanentemente. Os ruídos de artilharia pesada vindos do lado sul do vale eram um som habitual; os ataques da Força Aérea Israelita sobre diversos “objetivos militares” no vale não eram raros. Além disso, fazia um frio terrível no inverno, com neve muito espessa, e no verão o calor era de rachar pedra. A estrada para Beirute – que subia a mais de 1500 metros – era de uma dificuldade lendária: controlos militares sírios, tempestades de neve no inverno e uma tendência enervante para acidentes.

O próprio brejo era um desafio. A caça descontrolada era comum, e era difícil entender qual família era dona de quais terras. Durante os primeiros anos, o limite norte da zona úmida estave marcado com uma linha de tanques e carros armados sírios.

Vista do nome para o brejo de Aammiq, no verão de 2003 (foto por Chris Walley)

Vista do nome para o brejo de Aammiq, no verão de 2003 (foto por Chris Walley)

No entanto, nesse ambiente pouco prometedor o Chris e a Susanna conseguiram fazer tanto! Eles haviam estudado a língua árabe e se esforçavam para a falarem na sua forma corrente, e através disso eles fizeram muitos amigos e contactos. O Chris tinha um jeito especial para se colocar lado a lado com as pessoas, e logo ganhou a amizade – e certamente o respeito – dos proprietários, dos caçadores e da mistura tantas vezes explosiva de pessoas em Qabb Elias. Ele tinha um certo jeito gentil que acalmava mesmo os sempre presentes homens carregando armas automáticas que eram – ou diziam que eram – a autoridade nesse lado do Bekaa. A capacidade do Chris de fazer amigos era também evidente nas intermináveis reuniões com proprietários, com os diferentes ministérios do governo em Beirute e com outras organizações no terreno. Quando eu estava com ele eu sempre ficava impressionado com sua coragem, sabedoria e gentileza. Em uma cultura que depende do estabelecimento de ligações, lealdades e obrigações, a forma como o Chris e a Susanna demonstravam uma integridade tão clara e inabalável era impressionante. Todo mundo sabia que eles não podiam ser comprados ou manipulados – e isso queria dizer que eles eram de confiança.

O Chris era um excelente naturalista; ele possuía uma mente científica de primeira classe, uma vasta quantidade de conhecimento, uma energia sem limites e um grande prazer no mundo natural. Ele não era apenas um bom ecologista de campo; ele tinha um desejo profundo de compreender o quadro maior: como tudo, da geologia à agricultura, funcionava em conjunto.

Muito mais poderia ser dito sobre tudo o que o Chris e a Susanna fizeram, como se vê pela quantidade de estórias que estão sendo partilhadas por sua família e amigos por todo o mundo. Eles tiveram um papel notável recebendo grande número de visitas, sejam observadores de aves, ambientalistas, ou apenas curiosos. Eles foram importantes ao encorajarem as igrejas a considerarem o seu dever de preservar o mundo natural. Sem de forma alguma esconderem o seu compromisso com Cristo, eles desenvolveram ligações fortes com muitas comunidades, cruzando divisões ainda muito marcadas e que haviam explodido brutalmente durante os quinze anos da Guerra Civil.

No final, Aammiq foi salvo. Embora A Rocha tenha agora um papel muito pequeno no seu gerenciamento, o brejo está protegido e é hoje considerado uma das riquezas naturais do Líbano, tal como os cedros bíblicos. A sua preservação é em grande medida devido aos esforços do Chris e da Susanna.

Aammiq na primavera, tendo por fundo o Monte Hermon coberto de neve (foto de Chris Walley, 2003)

Aammiq na primavera, tendo por fundo o Monte Hermon coberto de neve (foto de Chris Walley, 2003)

O Chris referiu parte do que eles fizeram em seu livro Cartões postais do Oriente Médio, mas visto que nós mesmos estivemos lá, queremos deixar claro que a modéstia caraterística do Chris o fez minimizar tanto os sucessos quanto as dificuldades que ele e a Susanna enfrentaram. E se houve dificuldades! Mas o Chris e a Susanna sabiam aquilo em que estavam metidos, quais os riscos e obstáculos que tinham pela frente. O compromisso deles com os habitantes e com as riquezas naturais do Líbano era lúcido, inteligente e refletido. Aos olhos de um visitante ocasional, o Chris e a Susanna pareciam ser à prova das desgastantes frustrações, eternas crises e profundas tensões que caraterizavam este Líbano com uma história tão recente – e possivelmente repetível – de guerra civil. Aqueles de nós que os conhecíamos tínhamos noção que o seu trabalho tinha um alto custo associado. No entanto, havia neles um profundo sentimento cristão de chamado, e uma tal confiança em Jesus, que os fazia continuar apesar e através de tudo.

A Alison e eu mantivemos contato com eles após sairmos do país, em 1998, e o Chris, como sempre apoiado habilmente pela Susanna, continuou fazendo amigos e desenvolvendo o trabalho em Aammiq, e de fato dando a A Rocha Líbano uma projeção nacional. Quando regressaram à Inglaterra, ficamos felizes de saber que o Chris teria um novo papel em A Rocha Internacional, e continuamos nos encontrando e comunicando com regularidade.

É tentador pensar tudo o que o Chris e a Susanna poderiam ter feito caso tivessem vivido vidas longas. É talvez melhor celebrar aquilo que conseguiram no tempo que lhes foi dado. Com base em um sentido de chamado cristão, o Chris e a Susanna escolheram se internar em um dos locais mais difíceis do Oriente Médio. E no entanto, aquilo que eles conseguiram lá é impressionante. Não «apenas» a preservação de Aammiq – e quantas pessoas podem dizer que salvaram um sítio Ramsar? – mas também a forma como tocaram tantas vidas, encorajaram tantas pessoas e demonstraram a todos que existe uma coerência entre ser um cristão convicto e cuidar do meio ambiente.

As vidas do Chris e da Susanna foram bem vividas, para Deus e para a sua criação. Que mais – ou melhor – poderia ser dito de qualquer um de nós?

Categorias: Histórias
Sobre Chris Walley

O Chris tem um bacharelato e um doutoramento em geologia e trabalhou com consultoria em geologia para companhias petrolíferas e como professor universitário – no entanto, sempre muito envolvido em causas ambientais. Viveu durante oito anos no Líbano (1980–84 e 1994–96) e durante este segundo período foi corresponsável pela fundação de A Rocha Líbano. Ele e sua esposa Alison vivem agora no sul de França, a mio caminho entre os dois centros de A Rocha França. O Chris pertence à diretoria de A Rocha França e participa em semanas de formação no centro Courmettes, liderando também o passeio interpretado pela natureza dessa propriedade. Quando lhe sobra tempo, gosta de escrever tanto ficção como obras de teologia acessíveis ao público em geral, e escreveu já diversos livros em co-autoria com J. John; o mais recente foi Jesus Christ: The Truth.

Veja todos os artigos de Chris Walley (2)

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.