15 agosto 2016 | Peter Harris | 0 comentários

Simplesmente amor pela natureza

Alain de Botton recentemente escreveu um artigo muito perspicaz sobre como nossos tempos hiper-românticos têm nos levado a relacionamentos fracassados. Ele destacou como a leitura inebriante feita por Emma Bovary na infância lhe trouxera expectativas extremamente irreais sobre o verdadeiro problema de conviver com um ser humano. O ponto central de seu artigo foi este:

“As representações do amor na nossa cultura, frequentemente, são profundamente enganosas a nível psicológico. O fato de sermos tão ruins no amor – e as estatísticas sobre os rompimentos de relacionamento comprovam isso – é um problema que, pelo menos em parte, pode ser atribuído a razões culturais… O que falta são elementos imprescindíveis de sabedoria, realismo e maturidade. Nossas histórias de amor nos incentivam a esperar coisas do amor que não são nem muito possíveis, nem práticas.”

Como completei quarenta anos de casamento este ano, dos quais trinta foram trabalhando para A Rocha, por amor a Deus e sua criação, esse artigo me fez pensar. Tenho certeza que o autor está no trilho certo.

Greta Garbo e Melvyn Douglas em Ninotchka (1939)

Greta Garbo e Melvyn Douglas em Ninotchka (1939)

Agora está claro para os crentes do cristianismo e pessoas de crenças semelhantes que não será com a tecnologia, mas com uma mudança fundamental nos nossos desejos mais profundos, que seremos capazes de ajudar as espécies e habitats do planeta a sobreviver ao ataque devastador ao qual estamos submetendo-os. Mas precisamos pensar com cautela se convém esperar que simplesmente podemos aprender a “amar a natureza”. O que isso significa de verdade? O que é simplesmente amar?

Da mesma forma que as outras pessoas são complexas, imperfeitas e difíceis como nós, as narrativas bíblicas também indicam que a mesma causa de nossa própria ruína também aflige o restante da criação. Em suma, é nosso relacionamento rompido com Deus que destruiu todos os outros. Assim, se quisermos continuar trabalhando para a restauração da criação, será preciso mais do que sentimentos de amor indefinidos ou a usual imersão em vídeos de guepardos saltando nas planícies em câmera lenta ao som de violinos ou tambores. Será o comprometimento persistente, realista, sábio, com discernimento e baseado na comunidade que nos levará aos lugares difíceis em que a restauração faz a diferença.

Quanto ao objetivo ecológico do nosso desafio, devemos ter esses compromissos bem alicerçados para nos dar a perseverança de que precisamos para o trabalho de campo que será necessário por muitos anos com presença assídua, por exemplo, em florestas quentes e repletas de insetos ou em paisagens geladas e hostis. No campo da tomada de decisões, em que os políticos ou investidores financeiros e empresariais fazem suas escolhas, esse comprometimento pode resultar em organizações e líderes que estejam dispostos a sacrificar uma pequena parte do lucro financeiro para adotar métricas de crescimento e sucesso mais abrangentes e mais sensatas.

Dessa forma dizemos sim ao amor pela natureza, mas sem alimentar ilusões sobre o possível significado do amor verdadeiro. Em vez de dar atenção a feixes de sentimentos efêmeros sobre a beleza de tudo à nossa volta, ou a como nosso heroísmo individual pode “fazer a diferença”, podemos encontrar um modelo mais fidedigno na paixão de Jesus, o mais nobre ato de sacrifício e entrega que pode ser visto na igreja em todo o mundo. Caminhar nessa direção pode nos trazer uma sabedoria mais profunda, mesmo que nos conduza por estradas mais difíceis.

De Botton conclui:

«Apenas precisamos contar para nós mesmos histórias mais fiéis de como os relacionamentos se desenvolvem, histórias que normalizem os problemas e nos mostrem um caminho útil e inteligente em meio a eles.»

Curiosamente, muitas vezes é por isso que o pessoal de A Rocha lê histórias da Bíblia, e frequentemente é assim que elas nos fazem seguir adiante todos os dias, em nosso próprio caso de amor entre nós, conservacionistas, e a criação.

Tradução: Matheus Chaud / Rebeca Lins

Categorias: Reflexões
Sobre Peter Harris

Peter e Miranda se mudaram para Portugal em 1983, para criar e gerenciar o primeiro centro de estudos de campo de A Rocha. Junto com seus quatro filhos, eles viveram no centro por doze anos até 1995, ano em que o trabalho foi colocado sob liderança portuguesa. Aí eles se mudaram para a França, onde criaram o primeiro centro francês, perto de Arles, onde viveram até 2010, ao mesmo tempo que coordenavam e ofereciam suporte às lideranças desse movimento em rápido crecimento. Agora eles estão de volta para o Reino Unido, por forma a continuarem o suporte a toda a família A Rocha por todo o mundo, e ao mesmo tempo ficarem mais próximos da sua própria família, incluindo seus netos. Eles contam sua história em Under the Bright Wings (1993) e Kingfisher’s Fire (2008).

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