28 Fevereiro 2018 | Chris Naylor | 0 comentários

Qual é o momento para se falar sobre mudança climática?

O furacão Irma foi uma tempestade cujas dimensões e força quebraram recordes. Comunidades ao longo a faixa percorrida por ele, do Caribe para o sudeste dos EUA, só agora estão começando a entender a devastação que causou. Imagens de satélite mostrando Irma com o tamanho do Estado do Texas deram muito o que pensar seriamente.

Mas a devastação de comunidades e habitats não foi tudo o que Irma deixou em sua esteira – imediatamente teve início um intenso debate público sobre se devemos ou não discutir mudança climática em momentos como esses.

Legenda: Mapeamento da temperatura da superfície marítima, pela NASA. Quanto mais quente a água, maior a força dos furacões.

Alguns, como Scott Pruitt, administrador da Agência de Proteção Ambiental dos EUA, achavam que isso seria «falta de sensibilidade». Ele nunca escondeu seu próprio ceticismo quanto ao consenso científico de que a atividade humana está inevitavelmente levando a eventos climáticos mais extremos como o furacão Irma. Outros, como o Ministro de Estado do Reino Unido para os Assuntos Externos e da Commonwealth, Sir Alan Duncan, censuraram o único membro eleito do Parlamento para o Partido Verde do Reino Unido, Caroline Lucas, por sugerir que aquele era o momento certo para discutir-se a questão mais ampla das alterações climáticas, dizendo que era uma «falta de humanidade associar o furacão Irma às alterações climáticas».

As preocupações de A Rocha à medida que Irma se aproximava dos EUA foram pessoais e imediatas: o líder de nossa equipe marinha, Bob Sluka, e sua família haviam recentemente mudado para a costa da Flórida (você pode ler o seu relatório em primeira mão, À espera do furacão Irma). E é nessa veia pessoal que devemos responder primeiro, como cristãos e companheiros dos demais cidadãos neste planeta, àquelas comunidades que foram agredidas e feridas por essas tempestades devastadoras – fazendo-llhes companhia em seu sofrimento e estendendo nossas mãos a elas com apoio amoroso. As igrejas e as ONGs estão bem à frente dos esforços comunitários para fornecer água potável, comida, abrigo e tudo o que é necessário em uma resposta de desastre coordenada. Mas, à medida que as inundações recuam, e as pessoas e lugares iniciam a longa recuperação, esperamos também apoiar o surgimento de uma conversa mais sábia e despolitizada sobre as alterações climáticas, enraizada em duas convicções cristãs: A primeira é que as pessoas criadas à imagem de Deus têm uma missão sagrada de viver de acordo com a verdade que nos liberta. Assim, a prática da ciência honesta pode ser uma vocação sagrada, não importa o quanto seus dados sejam indesejados para nosso modo de vida anterior; em segundo lugar, temos uma vocação igual e inspirada em Cristo de cuidar de toda a criação e das comunidades humanas mais pobres, as quais são sem dúvida as mais vulneráveis aos efeitos do clima em rápida mudança.

Os eventos recentes trazem ainda mais determinação para viver essas convicções. Este ano mesmo, testemunhamos inundações no sul da Ásia, onde de acordo com a Parceria Internacional para a Saúde 1400 pessoas perderam a vida e 40 milhões foram afetadas pela subida das águas nos últimos dois meses; vimos uma onda de calor e, em seguida, incêndios que causaram um número sem precedentes de mortes em Portugal; e várias outras equipes de A Rocha em todo o mundo relataram eventos climáticos extremos que afetaram diretamente seu trabalho. Todos esses fenômenos correspondem fielmente às previsões dos climatologistas. Assim, para nós, esta é uma questão de compaixão e de dizer a verdade. Como a questão é fundamentalmente enraizada nas escolhas feitas pelas sociedades humanas, as quais, por sua vez, orientam-se pelo que sabem e no que creem, nossa primeira resposta tem que ser moral – e não política.

Sentimo-nos orgulhosos de termos recebido a eminente cientista climática Katharine Hayhoe no Reino Unido para nossa conferência em Londres na noite de 16 de novembro. Recentemente, ela argumentou no New York Times que «quando tentamos alertar as pessoas sobre os riscos, não há notícias que facilmente ganhem audiência. Ninguém quer ouvir. É por isto que o momento para falar sobre isso é agora. O mito mais perigoso e pernicioso que nós aceitamos quando se trata de mudança climática não é o mito de que ela não é real ou de que os seres humanos não são os responsáveis. O mito mais perigoso consiste em acreditar que ela não nos afeta. Como seres humanos, somos ótimos em fingir que um risco – mesmo cientes de que ele é real – não nos afeta.»

Portanto, acreditamos que este não só é o momento certo para falar sobre as alterações climáticas, mas também de agir para proteger as pessoas e espécies não-humanas de seus impactos imediatos. E acreditamos também que uma conversa melhor é possível e deve ser bem recebida por todos aqueles que estão empenhados em saber a verdade que nos liberta, e em encontrar essa verdade por todos os meios disponíveis.

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Categorias: Questões
Sobre Chris Naylor

Antes de se juntar a A Rocha, Chris possuía ampla experiência no ensino de ciências e gestão escolar no Reino Unido e no Oriente Médio, frequentando a Faculdade Bíblica e aprendendo árabe (na Jordânia) ao longo do caminho. Ele se juntou À Rocha em 1997 trabalhando, até 2009, como Diretor do Líbano onde foi co-fundador dos trabalhos no local. Ele inspecionava o programa de restauração do habitat na Zona Úmida de Aammiq, o desenvolvimento do projeto de educação ambiental e o programa de pesquisa de campo, identificando 11 novas importantes Áreas de Aves. Desde abril de 2010 é Diretor Executivo d’A Rocha Internacional e trabalha em Oxfordshire. Seu livro Postcards from the Middle East: How our family fell in love with the Arab world (“Cartões Postais do Oriente Médio: Como nossa familia se apaixonou pelo mundo Árabe”) foi publicado por Lion Hudson em março de 2015.

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