10 agosto 2015 | Dave Bookless | 0 comentários

Por que precisamos da sabedoria de Salomão

Os problemas ambientais da atualidade são tão complexos que muitas vezes parecem não ser passíveis de tratamento. Para lidar com eles precisamos não apenas de política, economia, ciência e tecnologia. Também necessitamos de muita sabedoria para avançarmos rumo a um mundo mais justo e sustentável. Mas onde podemos encontrá-la?

Anémona-coroada (foto: Barbara Mearns)

O rei Salomão ficou conhecido por sua sabedoria. Em resposta à oferta surpreendente de Deus, «Peça-me o que quiser, e eu lhe darei», ele poderia ter pedido segurança, prosperidade, saúde ou felicidade, mas, em vez disso, escolheu sabedoria. Sendo assim, «Deus deu a Salomão sabedoria, discernimento extraordinário e uma abrangência de conhecimento tão imensurável quanto a areia do mar». Hoje tendemos a pensar em sabedoria primeiramente como autoconhecimento e compreensão da sociedade humana. Ao arbitrar sobre questões humanas sabiamente (como no caso famoso em que duas mulheres se diziam mães de um mesmo bebê), o cerne da sabedoria de Salomão repousava em outro lugar.

A professora Ellen Davis, ao escrever sobre o livro de Provérbios, diz que «sabedoria significa ser detentor de duas coisas ao mesmo tempo: ter discernimento a respeito do mundo aliado à obediência a Deus» (Davis, p. 43). Os cristãos estão familiarizados com o segundo aspecto a partir da passagem bíblica: «O temor [assombro reverente] do Senhor é o princípio da sabedoria» (Prov 1:17, Salmo 111:10) mas o que dizer do “discernimento” do mundo natural?

De acordo com 1 Reis 4:33–34, Salomão foi um naturalista dedicado: «Descreveu as plantas, desde o cedro do Líbano até o hissopo que brota nos muros. Também discorreu sobre os quadrúpedes, as aves, os animais que se movem rente ao chão e os peixes. Homens de todas as nações vinham ouvir a sabedoria de Salomão. Eram enviados por todos os reis que tinham ouvido falar de sua sabedoria.» No cerne da sabedoria de Salomão havia a observação detalhada da flora e da fauna do antigo Oriente Médio. Assim como Jesus instruiu seus seguidores a se tornarem botânicos e ornitólogos para viverem sem preocupações, também a sabedoria de Salomão não tinha origem em livro ou discussão filosófica, mas em reflexão profunda nas obras de Deus.

Em meio à história do Cristianismo há exemplos daqueles que andaram pelo caminho da sabedoria natural de Salomão. Os pais do deserto e os primeiros santos celtas aliaram meditação, acerca da revelação de Deus na natureza, e também na Escritura. Francisco de Assis personificou uma espiritualidade cristocêntrica que reconheceu outras criaturas como membros parceiros da comunidade da criação. John Ray, Gilbert White e William Carey encontram-se, entre muitos outros, cuja sabedoria emergiu da profunda contemplação das maravilhas do mundo criado por Deus.

Hoje em dia precisamos retomar esse tipo de sabedoria. Estudos de campo deveriam fazer parte da grade curricular de todo jovem. Estudar ecologia e a vida selvagem profissionalmente precisa ser afirmado como um chamado cristão importante e santo. No entanto, o estudo da natureza não pode ser relegado apenas aos cientistas. O que se requer para a sabedoria não é apenas o questionamento racional da Ciência desconectado mas também a contemplação meditativa profunda por parte de artistas e poetas.

Para Ellen Davis, «é lamentável o fato de a Igreja, nos últimos três séculos, ter perdido de vista o fato de que a “sabedoria da natureza” é indispensável para se avaliar a correta função do ser humano na criação de Deus. Talvez tenha chegado o tempo para um reavivamento de tal ramo da teologia» (Davis, p. 56). Num mundo cada vez mais digital, virtual e globalizado todos os que deveriam buscar sabedoria precisam olhar atentamente para o meio ambiente. Buscar o conhecimento de espécies locais e habitats deveria ser parte da adoração e da sabedoria divina em todo cristão. Não somos capazes de entender o caráter e propósitos de Deus sem olhar para o que Deus fez. Não podemos entender o que significa ser um humano a menos que saibamos como os ecossistemas funcionam e como se dá nossa conexão com eles. Jesus de forma bem humorada pontuou que as flores ao longo do caminho estavam melhor vestidas até mesmo do que o rei Salomão. Não encontramos sabedoria suplementar ao lermos livros de pessoas sábias. Nós a encontramos ao buscarmos a Deus e ao conhecermos nosso lugar, dentro dos locais onde Deus nos estabeleceu.

Davis, Ellen F. Proverbs, Ecclesiastes, and the Song of Songs. Louisville, KY: Westminster John Knox, 2000.

Tradução: Ana Luisa Barreiros / Billy Viveiros

Categorias: Eco-heróis bíblicos
Sobre Dave Bookless

O Dave tem colaborado com A Rocha desde 1997, primeiro na diretoria internacional, e a partir de 2001 com A Rocha Reino Unido como co-fundador (com a sua esposa Anne), depois como Diretor Nacional, e finalmente como Diretor para a Teologia, Igrejas e Comunidades Sustentáveis. Ele se tornou Diretor de Teologia de A Rocha Internacional em setembro de 2011. A sua função inclui o aconselhamento e provisionamento de recursos à diretoria e equipe de A Rocha Internacional, e também às organizações nacionais A Rocha, e fazer a ligação com organizações teológicas e redes de missões internacionais. Simultaneamente, ele está fazendo seu doutorado na Universidade de Cambridge sobre teologia bíblica e conservação da biodiversidade.

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