23 maio 2016 | Peter Harris | 0 comentários

Financiando a preservação sem prejudicar o planeta

A generosidade é mesmo uma coisa estranha. Parece tão simples pôr a mão no bolso quando vemos uma pessoa necessitada ou quando gostamos do que ela está fazendo. Claro que nosso desejo é ajudar! Recentemente vimos na Europa a chegada desesperada de centenas de milhares de migrantes, de várias partes do mundo devastadas pela guerra ou afetadas pela fome. Com o passar do tempo fica evidente que os primeiros instintos impulsivos precisam se transformar rapidamente em planos mais sustentáveis e ponderadamente generosos.

As crises ecológicas que frequentemente estão por trás dessas convulsões sociais e políticas muitas vezes escapam das manchetes, mas não deixam de ser urgentes e reais. É geralmente aceito que o nível de financiamento existente para atendê-las é totalmente insuficiente. Simon Stuart, presidente da Comissão de Sobrevivência das Espécies da IUCN, que rastreia as ameaças às espécies em todo o mundo escreveu: “O gasto total global com a conservação da natureza é, provavelmente, de algumas dezenas de bilhões de dólares por ano, o que é quase insignificante em termos da economia global. Em comparação com os gastos de defesa, comércio, agricultura, saúde ou segurança social é praticamente invisível. O montante gasto cada ano através de subsídios governamentais para destruir maciçamente a natureza, supera o montante gasto para conservá-la. Diante disto, é notável o impacto positivo que o pequeno investimento em conservação realmente provoca. Se pagássemos o que é necessário para parar as extinções (talvez um aumento de 100 vezes nos gastos atuais ainda fosse muito pequeno em termos econômicos globais), nós certamente veríamos avanços impressionantes. Os cientistas mostraram que o valor total de recursos necessários para cumprir as metas acordadas a nível global para mitigar a perda de biodiversidade é 20 por cento inferior aos gastos com o consumo global anual com refrigerantes”. [*]

A mensagem é que a conservação funciona e que o investimento para fazer uma enorme diferença seria relativamente baixo.

Costa Rican Variable Harlequin Toad, Atelopus varius (photo by Robin Moore)

LEGENDA DA FOTO: A Aliança pela Sobrevivência dos Anfíbios pretende documentar o estatuto de sobrevivência e paradeiro de espécies ameaçadas de anfíbios, não vistos há mais de uma década. É um trabalho de campo vital, mas relativamente barato. A rã-arlequim-variável Atelopus varius desapareceu das florestas da Costa Rica e Panamá, antes de ser redescoberta em 2003. Foto: Robin Moore.

O financiamento de soluções para a rápida perda de biodiversidade ou para apoiar bons projetos que se preocupam com a criação que sustenta a todos nós requer reflexão e perícia, bem como sábia generosidade. Existem recursos e oportunidades de negócios para investidores de impacto a considerar. No entanto, eles são muito melhor desenvolvidos na área de redução da pobreza humana do que no combate à perda de biodiversidade. Assim, pelo menos no curto prazo, a filantropia em suas múltiplas e várias formas parece ser a resposta mais efetiva.

Além da generosidade empresarial e pessoal, parece que existe algo óbvio para ser feito e que traria um duplo benefício. Trata-se, simplesmente, de decidir criar nossa riqueza e administrar nossas economias de modo que estejam alinhadas às nossas intenções de generosidade. O modelo de financiamento à filantropia tradicional, mesmo de algumas fundações conhecidas e poderosas, obtém dinheiro esgotando a criação e até mesmo algumas vezes empobrecendo as comunidades humanas e, em seguida, o excedente é doado de acordo com valores bem diferentes, mais benevolentes. Mas não seria um duplo benefício se o dinheiro fosse originalmente ganho, por parte das empresas ou fundos de investimento de modo que a criação florescesse e as pessoas fossem capazes de viver uma vida mais resiliente? Não só haveria menos necessidades urgentes a serem resolvidas, como o dinheiro arrecadado viria de um trabalho realmente alinhado às generosas intenções dos doadores.

Por último, é claro que as empresas e os fundos que consideram a base tripla de sustentabilidade ambiental, responsabilidade social e boa administração, são comprovadamente mais robustos a longo prazo e, desse modo, uma melhor esperança para os investidores.

Se isso tudo faz sentido, temos que perguntar: então por que acontece tão pouco? A resposta simples, que se encaixa em um post de blog, parece ser que a conveniência de curto prazo e o lucro financeiro sobrepujam tanto o senso comum como as nossas boas intenções. Nós parecemos estar preparados para arriscar o nosso mundo e o mundo de nossos netos por um cálculo baseado no retorno trimestral ou em um ciclo político de dois anos. Portanto, aqueles que realmente acreditam que algumas coisas são mais importantes do que o lucro a curto prazo ou o valor imediato para o acionista, como cristãos nas esferas financeira, empresarial, jurídica ou política precisam do nosso apoio e orações para que possam ter a coragem e a criatividade de projetar melhores formas daqui para a frente. Conforme múltiplas crises ecológicas continuam a impactar nossos corações, mentes e imaginação, devemos esperar que nos seja dada a graça necessária para mudar e para encontrar mais sabedoria.

Poucas das boas causas apoiadas pela filantropia terão um futuro longo, a menos que elas possam ter um lar em um planeta vivo.

[*] Stuart, S. (2014). ‘Coming Back from the Brink’. In: G. Goodman (ed.). Biophilia. Synchronicity Earth, pp. 48-57. London.

Categorias: Reflexões
Sobre Peter Harris

Peter e Miranda se mudaram para Portugal em 1983, para criar e gerenciar o primeiro centro de estudos de campo de A Rocha. Junto com seus quatro filhos, eles viveram no centro por doze anos até 1995, ano em que o trabalho foi colocado sob liderança portuguesa. Aí eles se mudaram para a França, onde criaram o primeiro centro francês, perto de Arles, onde viveram até 2010, ao mesmo tempo que coordenavam e ofereciam suporte às lideranças desse movimento em rápido crecimento. Agora eles estão de volta para o Reino Unido, por forma a continuarem o suporte a toda a família A Rocha por todo o mundo, e ao mesmo tempo ficarem mais próximos da sua própria família, incluindo seus netos. Eles contam sua história em Under the Bright Wings (1993) e Kingfisher’s Fire (2008).

Veja todos os artigos de Peter Harris

Deixe uma resposta