5 outubro 2015 | Dave Bookless | 0 comentários

A Encíclica Papal: agora que a poeira baixou

St Francis, Church of St Juthware and St Mary, Halstock, Dorset, England – photo by Michael DayQuando a Encíclica do Papa Francisco sobre o meio ambiente, Laudato Sì – Sobre o cuidado da casa comum foi lançada, houve grande destaque da mídia e uma precipitação para lançar slogans pertinentes. Como era esperado, os comentários sobre a Mudança Climática ocuparam a maioria das manchetes, junto com frases mais chamativas como, “a terra, nossa casa, parece transformar-se cada vez mais num imenso depósito de lixo” [1], e as tristes, mas previsíveis reações irrefletidas de alguns comentaristas mais conservadores. Agora que a poeira baixou, no entanto, o que podemos fazer com a incursão do Papado sobre as questões ambientais? E mais particularmente, como ela se encaixa junto ao objetivo de A Rocha quanto aos projetos de conservação da vida selvagem, biblicamente inspirados e baseados na comunidade?

Em primeiro lugar, não é de se surpreender que a Encíclica seja um documento propriamente Católico, repleto de citações de Papas anteriores e constitui um apelo à Maria enquanto “Mãe e Rainha de toda a Criação” [2]. Baseia-se solidamente na tradição da doutrina social Católica, um ideal importante (e profundamente bíblico) proclamando ideias sociais, econômicas e políticas de um ponto de vista teológico. Pelo fato de a Laudato Sì ser genuinamente Católica e muito consistente, ela já está tendo repercussões importantes em todos os níveis da Igreja Católica global, e isso deve afetar A Rocha. Eu já ouvi falar de paróquias católicas se aproximando de A Rocha em busca de interlocutores para ajudá-los a compreender o cuidado com a Criação. Precisamos estender a mão para a amizade e a fraternidade cristãs quando são oferecidas, e trabalharmos em conjunto onde pudermos fazê-lo.

Em segundo lugar, embora dirigindo-se oficialmente aos Católicos, a Laudato Sì também tem alcance universal. O Papa Francisco diz: “… fora da Igreja Católica, noutras Igrejas e Comunidades cristãs – bem como noutras religiões – se tem desenvolvido uma profunda preocupação e uma reflexão valiosa sobre estes temas que a todos nos estão a peito [3]. Há referências sobre a escrita islâmica Sufi [4] e uma longa citação do Patriarca Ecumênico Ortodoxo [5]. Pelo fato de a terra ser a “nossa casa comum”, todos precisamos deixar de lado nossas diferenças e unir os recursos para lidar com a bagunça que criamos. A Rocha sempre atuou por meio do princípio de que, trabalhar lado a lado com aqueles que possuem outras crenças, ou nenhuma, não necessariamente diminui nosso compromisso com Cristo e com a verdade bíblica, mas, sim, nos coloca comprometidos na linha de frente do debate e da ação, dando-nos oportunidades para expressar a esperança que há dentro de cada um de nós. [6]

Em terceiro lugar, a Encíclica é surpreendentemente abrangente e assim sendo, necessita ser lida na íntegra. Pode-se encontrar material valioso sobre conservação marinha [7], experimentação animal [8], culturas geneticamente modificadas [9], além de globalização e tecnologia [10], somente para citar alguns exemplos. É muito mais moderada em sua abordagem econômica e política do que parece, e do que a imprensa noticiou. Por exemplo, o ensino social católico tem criticado constantemente tanto o comunismo quanto o capitalismo e foi fundamental para o colapso do antigo Leste Europeu na década de 1980. Assim, não é de se surpreender que a “Laudato Si” alie ideias ecológicas a consequências sociais, econômicas e políticas. Como alguém que busca argumento bíblico para se referir à conjunção entre a ecologia e a economia, congratulo-me com esta contribuição significativa, juntamente com o recente relatório “Economia Restauradora” da Tearfund, [11], e livros tais como Prosperidade sem Crescimento de autoria de Tim Jackson, [12]. O conceito da encíclica sobre a “Ecologia Integral” [13] é especialmente proveitoso, com suas reflexões sobre o trabalho, a justiça inter-geracional, o valor cultural e ecológico. Como exemplo [14]:

«Isto impede-nos de considerar a natureza como algo separado de nós ou como uma mera moldura da nossa vida. Estamos incluídos nela, somos parte dela e compenetramo-nos… As diretrizes para a solução requerem uma abordagem integral para combater a pobreza, devolver a dignidade aos excluídos e, simultaneamente, cuidar da natureza.»

Enquanto a vocação de A Rocha é especificamente dirigida para a conservação da biodiversidade, essa visão mais ampla nunca deve ser perdida, bem como os projetos que objetivam a proteção dos animais selvagens aliados à redução da pobreza, tais como o trabalho de A Rocha no Quênia, na Índia, em Gana e Uganda, são particularmente significativos.

Em quarto lugar, e de interesse específico para A Rocha, é o enfoque dado à conservação da biodiversidade. A encíclica condena a mercantilização das espécies e dos habitats como “recursos naturais, negligenciando o fato de que eles têm valor em si mesmos”, [15]. Há um chamado específico para a proteção das bacias do Amazonas e do Congo, além de um apelo para uma coordenação internacional para evitar sua destruição. No entanto, não são apenas estes lugares em especial, mas todas as regiões e espécies ameaçadas que necessitam de proteção. Caso existam quaisquer potenciais financiadores por aí, por favor, ouçam nosso apelo… e pensem em A Rocha! [16]

«Mais investimento precisa ser realizado no campo da pesquisa para melhor compreender o funcionamento dos ecossistemas e analisar adequadamente as diferentes variáveis ​​associadas a qualquer alteração significativa do meio ambiente. Pelo fato de todas as criaturas estarem ligadas, cada uma deve ser valorizada com amor e respeito, pois, todos nós enquanto seres vivos, somos dependentes uns dos outros.»

Finalmente, a encíclica papal inicia-se com as palavras do Cântico das Criaturas de São Francisco, ilustrando a importância da escolha do nome pelo Papa. A enorme crise ambiental que enfrentamos não pode ser solucionada exclusivamente pela ciência, pela educação ou por campanhas honestas. Nosso maior recurso é a oração feliz centrada em Cristo e na adoração. Aqui estão palavras não apenas para serem lidas, mas sobre as quais deve-se meditar [17]:

«Se nos aproximarmos da natureza e do meio ambiente sem esta abertura para a admiração e o encanto, se deixarmos de falar a língua da fraternidade e da beleza na nossa relação com o mundo, então as nossas atitudes serão as do dominador, do consumidor ou de um mero explorador dos recursos naturais, incapaz de pôr um limite aos seus interesses imediatos. Pelo contrário, se nos sentirmos intimamente unidos a tudo o que existe, então brotarão de modo espontâneo a sobriedade e a solicitude. A pobreza e a austeridade de São Francisco não eram simplesmente um ascetismo exterior, mas algo de mais radical: uma renúncia a fazer da realidade um mero objeto de uso e domínio. (…) O mundo é algo mais do que um problema a resolver; é um mistério gozoso que contemplamos na alegria e no louvor.»

Amém!

[1] Parágrafo (§) 21 • [2] § 241 • [3] § 7 • [4] Nota 159 (ao § 233) • [5] § 7-9 • [6] 1 Pedro 3:15 • [7] § 174 • [8] § 130 • [9] § 133–135 • [10] § 102–114 • [11] http://www.tearfund.org/en/about_you/campaign/report • [12] Earthscan, 2009 • [13] Capítulo 4, § 137–162 • [14] § 139 • [15] § 33 • [16] § 42 • [17] § 11–12

Imagem: Vitral de São Francisco, Igreja de Santa Juthwara and St Mary, Halstock, Dorset, England – photo by Michael Day

Tradução: Claudia Hoogewijs / Ana Luísa Barreiros

Categorias: Reflexões
Sobre Dave Bookless

O Dave tem colaborado com A Rocha desde 1997, primeiro na diretoria internacional, e a partir de 2001 com A Rocha Reino Unido como co-fundador (com a sua esposa Anne), depois como Diretor Nacional, e finalmente como Diretor para a Teologia, Igrejas e Comunidades Sustentáveis. Ele se tornou Diretor de Teologia de A Rocha Internacional em setembro de 2011. A sua função inclui o aconselhamento e provisionamento de recursos à diretoria e equipe de A Rocha Internacional, e também às organizações nacionais A Rocha, e fazer a ligação com organizações teológicas e redes de missões internacionais. Simultaneamente, ele está fazendo seu doutorado na Universidade de Cambridge sobre teologia bíblica e conservação da biodiversidade.

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