21 setembro 2015 | Peter Harris | 0 comentários

Conservação de cima para baixo

Lobos-cinzentos, predadores de topo

A pesquisa científica não “prova” a verdade religiosa embora cada conjunto de crenças interprete a mesma realidade.  Então, não seria surpresa que uma ideia recente dentro da disciplina da Ecologia se alinhasse, de uma forma bela, com o fundamento da perspectiva bíblica de que os seres humanos têm a responsabilidade, dada por Deus, de cuidar de toda a Criação.

Ao menos parece que foi isso o que aconteceu com nossa percepção do significado de cascatas tróficas. Para uma explicação interessante do conceito de cascatas, assista ao pequeno mas grande filme de George Monbiot: How wolves change rivers (“Como os lobos mudam os rios”). Ele alega que hoje entendemos que os ecossistemas assumem sua forma, e mudam, de cima para baixo.  É a influência de sua megafauna que geralmente faz a maior diferença e, portanto, os ecossistemas não são exclusivamente estabelecidos em suas formas pela geologia de base, desenvolvendo-se, como se imaginava anteriormente, de baixo para cima.

Até muito recentemente o significado do ser humanos como o maior “mega” de toda a megafauna talvez tenha sido subestimado pelo mundo da preservação da natureza. Nosso trabalho era só sobre salvar espécies, e isso significava trabalhar com habitats e fauna. Podíamos relegar as pessoas aos “humanitários” e aos entusiastas do desenvolvimento social. Hoje tem-se o claro entendimento de que as escolhas humanas, estabelecidas sobre valores e portanto fundamentadas em crenças, estão literalmente transformando a ecologia do planeta. Sendo assim, duas coisas poderiam nos fazer parar para pensar.

Em primeiro lugar, as crenças e valores que inspiram a forma como tratamos o mundo precisam ser profundamente coerentes e ajustadas a um propósito – e o dogma obviamente egoísta que prevalece nas sociedades de consumo de que “quanto mais coisas acumular mais feliz eu serei” não é verdadeiro.

Em segundo lugar, os que se preocupam em encontrar uma forma voltada a um futuro mais sustentável não podem se esquivar de  se engajar em comunidades de pessoas com todas as realidades contraditórias e complexas, que têm nos corações crenças e convicções profundamente estabelecidas.

O trabalho de conservação tornou-se, então, mais complicado e fundamentalmente muito mais gratificante na medida em que o florescer do ser humano agora encontra-se no cerne da questão. Gus Speth coloca a questão da seguinte maneira,

«Pensava que os maiores problemas ambientais globais eram a perda da biodiversidade, o colapso do ecossistema e a mudança climática. Pensava que com 30 anos de boa ciência poderíamos lidar com tais problemas, mas eu estava errado. Os maiores problemas ambientais são o egoísmo, a ganância e a apatia e para lidar com isso precisamos de transformação cultural e espiritual e nós, cientistas, não sabemos como fazer isso.»

Falou como alguém no topo de uma cascata trófica.

Tradução: Ana Luisa Barreiros / Billy Viveiros

Categorias: Reflexões
Sobre Peter Harris

Peter e Miranda se mudaram para Portugal em 1983, para criar e gerenciar o primeiro centro de estudos de campo de A Rocha. Junto com seus quatro filhos, eles viveram no centro por doze anos até 1995, ano em que o trabalho foi colocado sob liderança portuguesa. Aí eles se mudaram para a França, onde criaram o primeiro centro francês, perto de Arles, onde viveram até 2010, ao mesmo tempo que coordenavam e ofereciam suporte às lideranças desse movimento em rápido crecimento. Agora eles estão de volta para o Reino Unido, por forma a continuarem o suporte a toda a família A Rocha por todo o mundo, e ao mesmo tempo ficarem mais próximos da sua própria família, incluindo seus netos. Eles contam sua história em Under the Bright Wings (1993) e Kingfisher’s Fire (2008).

Veja todos os artigos de Peter Harris

Deixe uma resposta