9 novembro 2015 | Chris Naylor | 0 comentários

Cartões Postais do Oriente Médio, por Chris Naylor: 6. Cruzando culturas

2000 Zona Úmida de Aammiq, Líbano

In the spring of 2004 and again in 2005, a team of herpetologists from Lebanon, France and the UK surveyed 76 Lebanese sites for frogs, finding five species, including the Eastern Spadefoot, a first record for the country
Nas primaveras de 2004 e 2005, uma equipe de herpetologistas do Líbano, França e Reino Unido inventariaram 76 áreas libanesas para anfíbios, encontrando cinco espécies, incluindo o primeiro registro de Pelobates syriacus no país.

Desde o começo, quando os Harris nos pediram para liderar o projeto, minha maior ansiedade era como recrutaríamos uma equipe com a ampla gama de habilidades necessárias para realizar a conservação da zona úmida. Nós precisávamos, só para exemplificar alguns, de: hidrólogos, botânicos, engenheiros agrônomos, educadores, entomologistas, ornitologistas, assim como engenheiros hídricos, provedores de ecoturismo e estrategistas de negócios.

A resposta veio na forma das muitas nacionalidades dos membros da equipe, voluntários e residentes especialistas que de forma extravagante doaram seu tempo, e alguns toda uma parte de suas vidas. Em sua maioria os membros da equipeque permaneceram mais tempo ou tinham emprego local ou vieram como voluntários autofinanciados, através da rede de A Rocha. Éramos mantidos por um grupo de peritos advindos principalmente de ONGs conservacionistas parceiras que cresceram enquanto estávamos lá, tornando-se a espinha dorsal do movimento conservacionista do país, financiadas pelo Ministério do Meio Ambiente e vários departamentos de universidades. Para dar uma ideia da escala do apoio global que tivemos, estas são as nacionalidades da equipee de voluntários de longo prazo que trabalharam conosco durante nosso tempo no projeto: três americanos, sete britânicos, quatro canadenses, um holandês, dois franceses, quatro libaneses, um palestino, dois sírios, um suíço e um neozelandês, além de outros inúmeros voluntários de todas as partes do mundo.

Todos eles acresentaram algo à riqueza e ao desafio do trabalho transcultural. Eu amava trabalhar com um grupo tão diverso. Todavia, uma equipe transcultural é trabalho duro. Todos vêm com suas próprias pressuposições culturais, só que não as veem como pressuposições. Cada um de nós traz um grupo de normas, maneiras de ver o mundo e maneiras pelas quais esperamos que os outros vejam o mundo. Essas são produtos de nossa cultura – reconfortantes, normais e compartilhadas; bem, pelo menos compartilhadas lá em nosso país de origem. O problema de trabalhar fora de seu país de origem é que outras culturas têm seus próprios pressupostos e pensam que são o normal também! Com a crescente globalização, equipes transculturais são cada vez mais comuns, mas em sua maioria não operam como tal. Normalmente há uma cultura dominante e esta é mais comumente a cultura prevalecente in situ. Aqueles de fora desta cultura se adaptam e se enquadram nas expectativas e normas predominantes à sua volta, e a equipe, apesar de formada por diferentes nacionalidades, trabalha de uma maneira monocultural. Esta maneira certamente é mais fácil e frequentemente funciona muito bem, mas não é funcionalmente trans- ou mesmo multicultural.

Não foi assim conosco. Normalmente não havia uma nacionalidade dominante e, mesmo que houvesse, o contexto cultural onde todos trabalhávamos nunca era libanês. Isto levava a muitas discussões – tentando entender por que Charbel havia dito aquilo, por que a Carol estava chateada e por que as escolas libanesas estavam sempre atrasadas!

O tempo, a pontualidade e atrasos eram certamente uma das zonas de conflito padrão; outra era o status. Culturas diferentes podem ver o status, como você o consegue, o que significa, e como você pode perdê-lo de maneiras muito diferentes. Entre alguns de nossos libaneses, descobrimos uma intensa sensibilidade à adequação de tarefas dadas a determinados membros da equipeque raramente encontrávamos com o grupo mais internacional. Um exemplo pode ajudar aqui:

Richard e Yusef estavam no meio da zona úmida e tinham uma tarefa a fazer. Richard era um biólogo com doutorado em água doce da Nova Zelândia e Yusef era um biólogo recém-formado em uma universidade de Beirute. Ambos eram membros da equipe, e no calor do final da tarde precisavam coletar uma amostra de sedimento com uma broca. Esta broca é como um enorme descaroçador de maçã que você aparafusa no solo e então puxa para fora, com vários pés de sedimento preservados em suas camadas de deposição. É trabalho duro, realizado no calor e, se o solo estiver duro, a retirada de amostras pode levar até uma hora. E aquele dia o solo estava duro.

“Certo, sua vez,” disse Richard. “Acho que eu consegui empurrar mais um pouco para baixo.”

Yusef pegou a broca e após algumas voltas ineficazes caiu no chão, voltando-se com raiva para Richard, dizendo, “Isto é ridículo! Não deveríamos estar fazendo isso. Está muito quente, e de qualquer maneira deveríamos empregar um trabalhador para este tipo de tarefa. É manual!” A última palavra foi dita como se fosse aquela de seis letras.

Richard estava completamente confuso. “Mas você disse que ficaria feliz em ajudar. Você sabe que nós é que temos que fazer isso. Eu expliquei na reunião que não podemos contratar ninguém, já que tem que ser feito da maneira correta – ou a broca poderá quebrar no meio do barro duro, e é a única que temos. É disso que se trata o trabalho de campo – é maravilhoso estar ao ar livre; olhe em volta! Que privilégio incrível estar em um lugar como esse e chamá-lo de trabalho. Onde é que poderia ser melhor?”

A resposta de Yusef foi franca, mesmo que em voz baixa: “Em um escritório com ar-condicionado e uma grande mesa!”

A amostra de solo eventualmente foi feita, Richard fazendo 90 por cento do trabalho, mas o incidente levou a um entendimento muito maior da perspectiva de Yusef enquanto falávamos sobre isso depois do acontecido. Yusef havia se formado recentemente. Ele tinha um bacharelado. Ele e seus pais haviam feito grandes sacrifícios para que ele pudesse alcançar esse grau. Ele não entrou no projeto para isso. Era abaixo dele, e mais, muito abaixo do Richard, que era um doutor em ciências! Yusef estava feliz em estudar aves, níveis de água, plantas – “estudar” aqui sendo uma palavra operativa porque esta era uma tarefa que requeria respeito. Era ciência. Ele havia estudado duro e conquistado aquele direito. Ele não trabalhou todos aqueles anos para cavar buracos.

Enquanto projeto, tínhamos que aprender a respeitar tanto o espírito pioneiro do neozelandês, completo em sua paixão por estar ao ar livre e deleite no trabalho manual, quanto a adequação cultural de tarefas requeridas da equipe local. Apesar dos estrangeiros ignorarem as mensagens passadas nas atividades que realizavam, para um membro do grupo local, participar de tarefas que eram tidas como abaixo deles, ou degradantes, tinham consequências reais para seu status social, o qual era compreensível que eles fizessem um esforço para preservar.

Este é o último de seis excertos de “Cartões Postais do Oriente Médio”, por Chris Naylor. Publicado por Lion Hudson em março de 2015, e que pode ser adquirido de sua página no site de Lion Hudson.

Tradução: Sabrina Visigalli do Rosário / Elisa Gusmão

Categorias: Cartões postais
Sobre Chris Naylor

Antes de se juntar a A Rocha, Chris possuía ampla experiência no ensino de ciências e gestão escolar no Reino Unido e no Oriente Médio, frequentando a Faculdade Bíblica e aprendendo árabe (na Jordânia) ao longo do caminho. Ele se juntou À Rocha em 1997 trabalhando, até 2009, como Diretor do Líbano onde foi co-fundador dos trabalhos no local. Ele inspecionava o programa de restauração do habitat na Zona Úmida de Aammiq, o desenvolvimento do projeto de educação ambiental e o programa de pesquisa de campo, identificando 11 novas importantes Áreas de Aves. Desde abril de 2010 é Diretor Executivo d’A Rocha Internacional e trabalha em Oxfordshire. Seu livro Postcards from the Middle East: How our family fell in love with the Arab world (“Cartões Postais do Oriente Médio: Como nossa familia se apaixonou pelo mundo Árabe”) foi publicado por Lion Hudson em março de 2015.

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