20 junho 2015 | Chris Naylor | 0 comentários

Cartões Postais do Oriente Médio, por Chris Naylor: 3. Missão Impossível

1996–98 Vale de Bekaa, Líbano

Águia-cobreira

Águia-cobreira

A vida andava cheia. Além do ensino e trabalho de capelania na escola e da vida de uma jovem família, todo um campo de oportunidades se abriu na vila. Aos domingos de manhã eram as portas abertas e o ensino Bíblico. Durante a semana tínhamos um fluxo quase constante de visitas, crianças e adultos, pela casa. Enquanto na Inglaterra as conversas educadas passam longe de assuntos pessoais, pode-se dizer o oposto da vila libanesa. Para ser educado você precisa mostrar que se importa com seus vizinhos, e se você se importa com eles, vocês conversam sobre coisas com que eles se importam.

Isso se estende a assuntos que são quase um tabu no contexto inglês – religião, por exemplo. No Reino Unido, parece que foi decidido que a religião é pessoal e portanto deve ser mantida fora de todas as conversas. Religião não é só pessoal, é também séria ou, ainda pior, um assunto com o qual as pessoas se envolvem fortemente. Como diz Kate Fox em seu magistral livro Watching the English uma das regras mais profundas é “A Importância de Não Ser Sério” [1]. Não é assim para os nossos vizinhos libaneses. A religião claramente era importante para nós – deveria ser, afinal trabalhávamos para a igreja; então eles nos questionavam sobre nossa fé – muitas vezes.

Então não foi uma surpresa quando Abu Charbel, um dos anciãos da igreja local, me perguntou: “Então o que quer dizer essa observação de aves? Você não deveria estar gastando seu tempo ensinando a Bíblia, e não observando pássaros?”

Apenas um pouco surpreso, já que havíamos absorvido o fato de que nossos vizinhos sabiam de praticamente tudo o que fazíamos, eu respondi, “Eu ensino a Bíblia. Tivemos quarenta crianças na Escola Bíblica esta manhã.”

“Estou feliz de ouvir isso, mas você é um homem religioso. Se você tem tempo de observar pássaros, você tem muito tempo livre. Depois de seu trabalho na escola e tempo com a família, qualquer tempo livre deveria ser gasto trabalhando para a igreja, ensinando a Bíblia.”

O termo Rajul id deen (homem religioso) estava carimbado em meu passaporte – foi baseado no meu trabalho com a igreja e na escola que tínhamos residência no país. Claramente servia de definição da minha identidade na visão de Abu Charbel e deveria ditar como eu gasto meu tempo.

Como uma réplica rápida citei a injunção de Jesus no Evangelho de Mateus: “Olhai para as aves do céu” [2].

Mas a conversa me fez refletir. Abu Charbel tocou num nervo exposto. Viemos ao Oriente Médio para trabalhar com a igreja. Estudamos em uma Faculdade Bíblica, aprendemos árabe e levantamos fundos para viver a nossa fé nas comunidades de West Bekaa. Sacrificamos as realidades mais simples das escolas inglesas para trabalhar e educar nossos filhos, um dos melhores planos de saúde gratuito, e estendemos a vida em família para uma vida mais dura com eletricidade esporádica, água intermitente e bombardeio militar logo abaixo da vila. Tudo isso fora feito para que eu pudesse observar pássaros?

A resposta às minhas questões e uma redefinição radical do meu entendimento do que significava trabalhar para a igreja vieram em duas prestações. A primeira parte veio quando eu levei minha turma do nono ano em uma excursão pela zona úmida. Estávamos estudando ecologia em sala de aula, aprendendo como os ecossistemas naturais provêm as necessidades humanas: água limpa, solos, peixes e caça, combustível e fármacos naturais. Parecia correto levá-los à coisa mais próxima de um ecossistema natural do vale, e então em um dos últimos dias do semestre eu me encontrava em um ônibus escolar quente com quarenta adolescentes exuberantes no caminho de Aammiq. Ainda estávamos em Zahle, menos de um quilômetro da escola, quando os tambores Derbakeh começaram. Nenhuma viagem escolar libanesa está completa sem a batida destes tambores, impulsionada pelas palmas da turma, incitando um ou dois dançarinos no corredor. Doces, chocolate e cola logo foram ofertados quando quarenta lancheiras foram sacadas. Quando chegamos à zona úmida, a turma estava agitada.

Com meus colegas professores alinhei os alunos na grama ao lado do ônibus para uma severa palestra sobre o respeito a vida silvestre e a tranquilidade da zona úmida. Éramos convidados dos donos das terras que gentilmente nos cederam permissão para a viagem; poderíamos até dizer que éramos convidados da própria zona úmida. Era para eles andarem cuidadosamente descendo até as árvores alinhadas no primeiro charco, carregando o equipamento necessário para o dia, pranchetas, redes de lago e potes plásticos, em fila única na trilha estreita.

A calma forçada durou até que o primeiro dos insetos foi visto. Os alunos da frente da fila fizeram seu caminho através de um trecho de grama longa, incomodando um grupo de esperanças, grandes insetos parecidos com gafanhotos com cabeças longas e estendidas. Com grandes asas de gaze, voaram apenas alguns metros para além da perturbação, para pousar mais uma vez na grama e nas crianças.

Gritos imediatos de: ”Mate-o!”, “Está em mim!”, “Aghhhhhh!” ecoaram pela zona úmida. A fila ordenada explodiu. Dançando numa batida diferente, os alunos eventualmente chegaram ao encontro sob as árvores e depois de vários minutos de protestos, consolos e checagem de que não haviam insetos no cabelo ou roupas, a turma ficou quieta.

Quando a ordem foi restaurada, uma sombra de prata flutuou acima do grupo. Todas as cabeças se voltaram para cima e ficaram paralisadas, contemplando o corpo suspenso de uma águia-cobreira, sua cabeça cor de canela concentrada, a palidez de seu corpo e asas em constante movimento. Estava caçando cobras. Eu decidi não mencionar isso para minha turma nervosa, mas deixar a experiência do encontro fazer sua mágica. Uma conexão estava sendo feita. Este grupo de jovens urbanizado e cheio de comida processada estava se conectando com uma das realidades mais profundas do universo assim como majestade e dolorida beleza, um verdadeiro caçador selvagem compartilhou seu espaço com eles.

Aproveitando a calma que pairou sobre a turma com a aparição da águia, dividimos os alunos em três grupos. O Sr. Bsous levou um grupo para uma escalada numa encosta vizinha de Qalaat Mudiiq para procurar tartarugas, lagartos e lagartixas. Faisal, que se juntou a nós naquela tarde, levou o segundo grupo para procurar aves nas poças para além do canavial. Eu juntei minha dúzia de pupilos para fazer o arrasto na poça mais profunda perto das árvores para descobrir que encantos viviam abaixo da água, usando nossa rede improvisada de meias velhas e cabides dobrados.

Era uma turma transformada, a classe que se reuniu à sombra do freixo duas horas depois. Eles estavam borbulhando com informações sobre as criaturas que haviam visto; a iridescência dos escaravelhos, o vôo bêbado da borboleta cauda-de-andorinha e o puro prazer de pegar os girinos e pequenas rãs que logo começariam suas vidas na terra. Usando suas próprias observações, era como conduzir uma orquestra para estabelecer os objetivos de aprendizagem da lição; a zona úmida provia serviços inestimáveis para as comunidades humanas de Bekaa, continha raras e maravilhosas espécies e precisava de proteção.

Não paramos ali; ; a turma fez perguntas durante todo o trajeto de volta até o ônibus. Por que a zona úmida era tão especial? O que aconteceu com o resto da vida selvagem do vale? Por que há tantos tipos de insetos? Por que Deus se importou em fazer tantos tipos de besouros, e por que eles eram tão lindos? Por que a águia tinha que caçar, que matar para viver?

Selecionamos algumas questões para as aulas de biologia e outras para a capela, mas o que a experiência me ensinou foi que a zona úmida, os lugares selvagens do Líbano, tinham um poder de ensino – ciência, sim, mas também assuntos muito mais profundos. Eu não deveria estar surpreso. Os salmos estão cheios da criação apontando para Deus, e no livro de Jó, capítulos 38 a 41, Jó aprende suas lições sobre o “mistério do universo” observando a natureza e algumas de suas mais extraordinárias criaturas. Mas na vida contemporânea esses encontros são raros.

Este é o terceiro de seis excertos de “Cartões Postais do Oriente Médio”, por Chris Naylor. Publicado por Lion Hudson em março de 2015, pode ser adquirido de sua página no site de Lion Hudson.

[1] Kate Fox, Watching the English. Londres: Hodder & Stoughton, 2014, p. 62.

[2] Mateus 6:26, versão ARC.

Tradução: Sabrina Visigalli do Rosário / Vinicius Gripp B. Ramos

Categorias: Cartões postais
Sobre Chris Naylor

Antes de se juntar a A Rocha, Chris possuía ampla experiência no ensino de ciências e gestão escolar no Reino Unido e no Oriente Médio, frequentando a Faculdade Bíblica e aprendendo árabe (na Jordânia) ao longo do caminho. Ele se juntou À Rocha em 1997 trabalhando, até 2009, como Diretor do Líbano onde foi co-fundador dos trabalhos no local. Ele inspecionava o programa de restauração do habitat na Zona Úmida de Aammiq, o desenvolvimento do projeto de educação ambiental e o programa de pesquisa de campo, identificando 11 novas importantes Áreas de Aves. Desde abril de 2010 é Diretor Executivo d’A Rocha Internacional e trabalha em Oxfordshire. Seu livro Postcards from the Middle East: How our family fell in love with the Arab world (“Cartões Postais do Oriente Médio: Como nossa familia se apaixonou pelo mundo Árabe”) foi publicado por Lion Hudson em março de 2015.

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