12 maio 2015 | Chris Naylor | 0 comentários

Cartões Postais do Oriente Médio, por Chris Naylor: 1. Primeira exploração no Líbano

Verão, 1995: Zona Úmida de Aammiq, Vale de Bekaa, Líbano

Capa do livro

Caminhei em direção aos rapazes que estavam tentando matar as cobras.

“Você quer tentar?”, perguntou o atirador mais próximo.

“Não, obrigado. Eu gosto de cobras e não quero matar uma criatura inocente que não está me fazendo nenhum mal”, repliquei.

“Ele fala como o Yusef!” disse um garoto alto e imaculadamente vestido, enquanto atirava sua garrafa de Coca na poça mais próxima. “Ele gosta de cobras; de todos os tipos de animais esquisitos.”

Decidi que queria conhecer Yusef e então, após esclarecer que eu seria o novo professor de ciências da grande escola do vale (o que parecia explicar minhas visões estranhas sobre a vida animal), fui escoltado por um barulhento grupo de garotos e jovens pelo pântano propriamente dito, na trilha de Yusef. Estes garotos conheciam os caminhos que se entrecruzavam nas partes mais secas dos juncos e prados escondidos que nos levavam cada vez mais fundo aos pântano, longe dos sons de pessoas e de trânsito, entrando num mundo estático, abafado pelas cortinas de juncos. Cabeças penosas iluminadas pelo sol se esticavam para cima do azul centáureo do céu.

Inicialmente trouxemos nosso próprio barulho conosco, rouco e estridente enquanto a comitiva curtia a energia do grupo, assustando saracuras que corriam para o mato. Garças-vermelhas, saindo da camuflagem no último minuto em uma explosão de asas, levantavam seus corpos alongados acima dos juncos. Mas logo a magia do lugar tomou conta e um silêncio pairou sobre o grupo. Seguíamos trilhas feitas por criaturas selvagens, javalis e talvez hienas ou felinos do pântano – longe da estrada com seu avental de grama servindo de anfitrião para a festa da vila – num oásis de paz, intocado pela humanidade.

“Parem!” gritou Abdallah, nosso auto-eleito líder, apontando para a cerca assimétrica com seu único fio enrolado em um canto no campo, encaixado dos dois lados no zigue-zague de um pequeno rio,

Al Gaam! Minas!”

Não tão intocado pela humanidade, afinal. Como que para marcar o contraponto de realidades, um boom sônico detonado acima de nossas cabeças e um segundo em seu encalço – aeronaves Israelitas, quebrando a barreira do som em seu retorno para casa. E é claro, trilhas de vapor em forma de arco apontaram a interrupção enquanto o vizinho do Líbano flexionou seu músculo militar, só em caso de alguém se esquecer que eles controlavam o céu. Um evento diário, causava pouco mais do que uma breve pausa em uma conversa, mas a zona úmida irrompeu quando grandes bandos de patos e aves limícolas explodiu dos lagos escondidos. Logo estavam rodopiando em círculos decrescentes, os pequenos corpos das aves descendo primeiro; os patos, atormentados pelos caçadores, debatendo-se para encontrar um lugar seguro onde pousar.

Eu fui bombardeado com emoção. Na gloriosa paz deste lugar silvestre, com o sol atrás de nós e a majestade das montanhas ocidentais marchando em seu caminho para o Deserto Sírio adiante, eu estava desfrutando da companhia de um entusiástico e infeccioso bando de garotos em um santuário de rara beleza natural. Mais alguns passos e um ou mais de nós teríamos sido explodidos.

Eu também lutava para entender as atitudes que havia encontrado entre os jovens libaneses à minha volta. Eles claramente amavam este lugar – mas, de minha perspectiva muito britânica, o diminuíam com seu lixo, barulho e caça aleatória. Este era um comportamento tipicamente libanês? Fazia parte da cultura, ou as atitudes variavam aqui tanto quanto em minha terra? Havia uma visão libanesa da caça, natureza, barulho… alguma coisa? Os libaneses viam seus arredores como os outros árabes? Havia um modo árabe de enxergar o mundo?

Estas perguntas são questões de identidade, e enquanto escrevo sobre este tópico sinto que estou de volta àquele campo minado no pântano. Tenho certeza que vou dar um passo errado e explodir. Mas é um território importante para se mapear. De muitas maneiras este livro é uma tentativa de construir padrões e conexões de nossas experiências como uma família britânica vivendo no mundo árabe, para melhor entender este mundo e o seu povo.

Este é o primeiro de seis excertos de Cartões Postais do Oriente Médio, por Chris Naylor. Publicado por Lion Hudson em março de 2015, pode ser adquirido (em inglês) de sua página no site de Lion Hudson.

Tradução: Sabrina Visigalli do Rosário / Vinicius Gripp B. Ramos

Categorias: Cartões postais
Sobre Chris Naylor

Antes de se juntar a A Rocha, Chris possuía ampla experiência no ensino de ciências e gestão escolar no Reino Unido e no Oriente Médio, frequentando a Faculdade Bíblica e aprendendo árabe (na Jordânia) ao longo do caminho. Ele se juntou À Rocha em 1997 trabalhando, até 2009, como Diretor do Líbano onde foi co-fundador dos trabalhos no local. Ele inspecionava o programa de restauração do habitat na Zona Úmida de Aammiq, o desenvolvimento do projeto de educação ambiental e o programa de pesquisa de campo, identificando 11 novas importantes Áreas de Aves. Desde abril de 2010 é Diretor Executivo d’A Rocha Internacional e trabalha em Oxfordshire. Seu livro Postcards from the Middle East: How our family fell in love with the Arab world (“Cartões Postais do Oriente Médio: Como nossa familia se apaixonou pelo mundo Árabe”) foi publicado por Lion Hudson em março de 2015.

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