30 Abril 2018 | Peter Harris | 0 comentários

A rarefação da vida

Esta é a contribuição de Peter para o artigo Creation Groans, but God Hears: Many Species Face ‘Thinning of Life’ («A criação geme, mas Deus escuta: muitas espécies enfrentam uma “rarefação da vida”») por Cara Daneel, publicado a 2 de março de 2018 na revista americana Christianity Today

Miranda e eu vimos trabalhando para A Rocha há 35 anos, e não temos dúvida alguma de que a maioria dos lugares que conhecemos ao redor do mundo têm testemunhado o que vem sendo chamado “a rarefação da vida”. Nós, pessoalmente, temos observado o colapso das populações quenianas de aves de rapina, e o declínio dramático no número de passeriformes migrantes que eu conheço bem a partir de anos de anilhagem em Portugal. Sabemos de primeira mão sobre a perda catastrófica de insetos voadores na Europa, e o desaparecimento de espécies de peixes em recifes de coral que agora estão muito danificados em todo o mundo. A forma pela qual uma pessoa vivencia experiências como essas vai, naturalmente, depender de que tipo de pessoa ela é. A formação e a experiência que Miranda e eu temos é na área artística, e às vezes a nossa resposta a essas múltiplas perdas tem sido emocional e bastante pessoal.

European Turtledove by Chrischan1077 – CC-BY-SA licence

Rarefação da vida: nos últimos 30 anos, 55% das aves agrícolas desapareceram da União Europeia (fonte). Foto: rola-brava Streptopelia turtur por Chrischan1077, licenciada sob CC-BY-SA-3.0

Por isto, tentamos encontrar maneiras de persistir realizando um bom trabalho contra a maré de destruição crescente. Entendemos que é em nossa relação com um Deus amoroso que encontraremos o centro desses caminhos, e por isso tem sido imensamente reconfortante saber que o Senhor chora por sua criação e ouve o seu gemido, muito mais direta e pessoalmente do que nós. Descobrimos que há recursos de lamento e até mesmo indignação em muitos textos bíblicos que expressam esses sentimentos. No entanto, eles estabelecem uma trajetória de esperança final para a criação que não repousa em nossos esforços, mas na vontade e no compromisso de Deus para com a redenção e a salvação.

Também passei três anos no ministério pastoral em uma igreja perto de Liverpool, Reino Unido. Depois disso, descobri que o trabalho de um cristão em conservação assemelha-se bastante com o trabalho pastoral. Por exemplo, no trabalho pastoral você é chamado às vezes simplesmente para sentar-se à cabeceira de um amigo moribundo. É assim também que você pode sentir-se quando é incapaz de fazer qualquer coisa para impedir que habitats especiais, complexos e raros se transformem em monoculturas estéreis, na pior das hipóteses, ou em agricultura insustentável na melhor. Isso aconteceu em milhares de hectares das florestas Dakatcha no Quênia, que foram queimadas e destruídas simplesmente para a plantação de enormes campos de abacaxis. E no sul de Portugal, construtores vêm especulando os valores da terra para destruir habitats raros visando unicamente o lucro financeiro. À medida que você vê isso acontecer, a fé é construída pela prece de luto, mesmo enquanto você luta por resultados diferentes.

Assim, embora não haja dúvida de que a ação pode ser um alívio para as emoções, se pedimos sucesso em nossos termos e a partir de nossos esforços, tornamo-nos prisioneiros de eventos sobre os quais temos frequentemente pouco ou nenhum controle. Em vez disso, temos descoberto que as fontes de resistência se aprofundam através da fé no caráter de Deus, na celebração da beleza que ainda resta, e na satisfação em conhecer a verdade que nos liberta.

Categorias: Reflexões
Tópicos: esperança lamento
Sobre Peter Harris

Peter e Miranda se mudaram para Portugal em 1983, para criar e gerenciar o primeiro centro de estudos de campo de A Rocha. Junto com seus quatro filhos, eles viveram no centro por doze anos até 1995, ano em que o trabalho foi colocado sob liderança portuguesa. Aí eles se mudaram para a França, onde criaram o primeiro centro francês, perto de Arles, onde viveram até 2010, ao mesmo tempo que coordenavam e ofereciam suporte às lideranças desse movimento em rápido crecimento. Agora eles estão de volta para o Reino Unido, por forma a continuarem o suporte a toda a família A Rocha por todo o mundo, e ao mesmo tempo ficarem mais próximos da sua própria família, incluindo seus netos. Eles contam sua história em Under the Bright Wings (1993) e Kingfisher’s Fire (2008).

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