29 maio 2017 | Dave Bookless | 0 comentários

A alimentação mundial e a Agricultura Abençoada por Deus

Quando eu cursava história moderna na Universidade na década de 1980, estudamos a “Revolução Verde” da Índia. Na tentativa de alimentar uma população crescente e evitar fomes cíclicas, houve um investimento maciço durante os anos de 1960-70 na agricultura “moderna”, com irrigação, melhoramento de sementes, mecanização e inseticidas e pesticidas em abundância. A “Revolução Verde” foi considerada um exemplo de progresso: como a tecnologia pode salvar e alimentar a todos.

Hoje, as coisas parecem um pouco diferentes. Sim, a produtividade cresceu inicialmente, e alegou-se na época que milhões foram tirados da fome, mas os custos foram pesados. A análise dos custos sociais e econômicos é complexa, mas incluiu a sujeição de pequenos agricultores ao poder de agiotas e corporações multinacionais. Agricultores, acostumados tirar seu sustento da terra, foram forçados a adotar uma economia monetária e, muitas vezes, a endividar-se: 300.000 agricultores indianos já devem ter se suicidado desde 1995 (*). A seguir, havia os custos para a saúde humana: novamente contestados por alguns, mas o uso indiscriminado de aditivos químicos parece ter tido graves consequências na água potável, mortalidade e deficiência infantis, e outras doenças. O Estado de Punjab, conhecido como celeiro da Índia, tem sido descrito como estando “nas garras de uma terrível crise ambiental e de saúde emanando das intensivas práticas agrícolas envolvendo grandes doses de produtos químicos e pesticidas em uso nas últimas quatro décadas.” (*) O Punjab tem 2,5% das terras agrícolas da Índia, mas usa 18% dos pesticidas do país.

Os custos ambientais foram significativos em vários níveis. Monoculturas de larga escala e o uso pesado de inseticidas inevitavelmente reduzem a biodiversidade, tanto dentro de terras agrícolas como em áreas vizinhas “selvagens”. O colapso nas populações de abelhas ao redor do mundo pode ser um aviso antecipado em relação a impactos de agroquímicos em ecossistemas [*]. Além disso, a fertilidade da terra tem sido progressivamente destruída, exigindo cada vez mais o uso de fertilizantes. Isto não só cria um ciclo de dependência de combustíveis fósseis (vitais para a produção de fertilizantes artificiais) poluentes e em decréscimo, como também destrói a fertilidade do solo em si.

A Agricultura Abençoada por Deus na Escola Primária da Universidade de Makerere, Uganda

A Agricultura Abençoada por Deus na Escola Primária da Universidade de Makerere, Uganda

 

E isso leva-me às perguntas: é possível alimentarmos o mundo sem destruirmos as comunidades, culturas e a criação? O que, se houver alguma coisa, tem a Bíblia a dizer sobre o solo, agricultura e o uso da terra? Na verdade, muito! Se você quiser examinar a fundo, eu sinceramente recomendo o livro de Ellen Davis Scripture, Culture and Agriculture: An agrarian reading of the Bible (“Escrituras, Cultura e Agricultura: uma leitura agrária da Bíblia”). No centro desse livro – e no centro da Bíblia – está o reconhecimento de que a terra não é uma mercadoria, mas uma comunidade, da qual fazemos parte. Somos, desde a criação, feitos do solo: Adão de adamah, o pó da terra. O solo, sabemos agora, não é um objeto inanimado, mas uma comunidade de milhões de microrganismos. Envenená-lo com pesticidas e fertilizantes artificiais destrói sua vida e sua capacidade de renovar-se. É por isso que a chamada Revolução Verde foi um fracasso a longo prazo. Falhou no respeito à integridade do solo ou no conhecimento local das pessoas que viveram em relação com ele durante séculos.

É por este motivo que ‘Farming God’s Way’ (*), que funciona em mais de 20 países africanos, de Angola até o Zimbabwe, é uma solução autêntica para os pequenos agricultores, para alimentar as pessoas e para a restauração da biodiversidade… e tudo com base em princípios bíblicos aplicados a um contexto africano. A Rocha Quênia (*) e A Rocha Uganda (*) vêm utilizando a “Agricultura Abençoada por Deus” há anos. Usando sementes locais, métodos biológicos naturais de controle de pragas, adubo e estrume como fertilizantes e para reter a umidade (“cobertor de Deus”); combinando isso com o ensino bíblico e de base científica sobre a interdependência da criação, os resultados podem ser fantásticos! Um e-mail recente do Quênia falava sobre uma colheita de cebola num terreno de Agricultura Abençoada por Deus que havia produzido 5 vezes mais do que o terreno vizinho convencional, e tudo isto em condições de seca.

Então, como a sua plantação está crescendo? Quer você cultive ou não alimentos, todos nós comemos. Se Deus nos criou para ser ligados por um cordão umbilical uns aos outros, e a todas as criaturas e à terra, então o que nós comemos, como e onde o alimento cresce, e o que é adicionado a ele, realmente importa. Em um mundo onde milhões ainda passam fome e a biodiversidade está desaparecendo, também é importante que possamos apoiar e difundir programas como a Agricultura Abençoada por Deus : por causa dos pobres, para o bem do planeta, pelo amor de Deus.

(*) Ligações em inglês

Tradução: Elisa Gusmão

Categorias: Reflexões
Sobre Dave Bookless

O Dave tem colaborado com A Rocha desde 1997, primeiro na diretoria internacional, e a partir de 2001 com A Rocha Reino Unido como co-fundador (com a sua esposa Anne), depois como Diretor Nacional, e finalmente como Diretor para a Teologia, Igrejas e Comunidades Sustentáveis. Ele se tornou Diretor de Teologia de A Rocha Internacional em setembro de 2011. A sua função inclui o aconselhamento e provisionamento de recursos à diretoria e equipe de A Rocha Internacional, e também às organizações nacionais A Rocha, e fazer a ligação com organizações teológicas e redes de missões internacionais. Simultaneamente, ele está fazendo seu doutorado na Universidade de Cambridge sobre teologia bíblica e conservação da biodiversidade.

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